11.5.18

Baile

Tinha a mão na cintura e a outra em par com a nuca do homem de camisa azul cor-do-céu-quando-está-para-chover. O mesmo homem enlaçava a mulher com os seus braços longos, cobria as costas com a palma da mão gigante e a rodava feito moinho de vento, sinalizando tempestade. Em trovões foram embalsamando a ocasião. Já saiam do compasso quando deram conta do encontro. Perceberam a junção das próprias matérias, salpicadas de sons e palavras cantadas na raiz da audição. Mantinham-se calados, dando vez aos termos saltados dos olhos, fuzilantes da alma alheia ali. A saia de flor feito primavera recém-chegada convidava os joelhos dele ao encontro dela, num embalo lento, desenhando jardins no ar. A camisa quase-chuva alimentava as pétalas da saia e de seus donos fluíam sensações de nova estação. Todo o instante fez-se de pequeninos momentos do casal bailarino dono do espaço. A nova época anunciava outra combinação de cores, na mistura líquida trazida daquela percepção invadida nos dois juntos. Os fios que marcavam cada pele, resultado de outros bailes e outros pares (mas) inconjuntos, transportavam-se para além do corpo patrão, juntando-se às linhas do outro, como se quisessem não mais ter história mortal, como se quisessem continuar sem começo e nem fim. Cada linha fugia do corpo-morada e emparelhava-se à linha vizinha de frente. Em poucas horas sem contar, as epidermes da mulher de flor e do homem de chuva findaram-se, ignorando as cores do cenário. Eternizaram-se, num bailar ininterrupto. A imagem em movimento inabalável tornou-se atração do salão, logo emoldurada. Cena de temporal.

27.4.18

identidade

os anéis as roupas o vestido de noiva
a bússola os ingressos as escolhas
o carro a casa os cadeados
as moedas o receio a dúvida

não são meus

o corpo o padrão o instinto
ocupam um recinto por onde falo
sem poder pertencer

sou um desejo pulsante ignorado
um lapso
convencido para não viver

13.4.18

Sexta, 13 de abril

plásticos em minha corrente sanguínea
minhas pernas não sentem mais que são minhas

levaram o meu casaco e socaram o meu rosto

sangue na boca
álcool nos cabelos 

as árvores distantes no morro, depois dos carros, atrás dos prédios
as sombras, elas existem?

a poeira escura de baixo picou os meus olhos e eu estou ficando cega

a foto do rosto dele na tela do celular quebrado, sem conexão
as falas trocadas e os desejos confessados
as passagens escritas nas minhas mãos rasgadas

estou vivendo fora de casa há muito tempo e precisava me abrigar 
em algo feito aquele homem
vi seu movimento uma vez e me perdi
todos os nãos não ditos que eu ouvi

mais de três décadas e eu ainda não sei o que o amor significa 

as horas começaram a esfriar. hoje eu quero morrer. mas não vou.

10.3.18

Para frente

Digo-lhe uma verdade, não por escolha:
A minha vida, enfim, mudou tanto que, ainda que exista saudade do que está perdido, eu não quero voltar.

2.3.18

23.2.18

E se, fim

Nada engana mais do que a verdade.

Eu, por exemplo, equivoco-me na tentativa inútil de me convencer de que o silêncio traz a dúvida para suportar a espera, quando, bruta realidade, faz-se a melhor resposta.

20.2.18

Uma constatação

Há sempre quem queira confiscar a minha humanidade, mas contar as minhas estórias pode ser capaz de restaurá-la:

A única saída é viver em voz alta.

11.2.18

8.2.18

Os limites inevitáveis

- O amor perdoa a culpa. O amor suporta dois mil quilômetros de distância física. O amor desconsidera histórias simultâneas. O amor preenche a pergunta sem resposta. O amor habita mesmo sem sabor ou temperatura. O amor aponta a saída dos labirintos naturais. O amor ignora a imagem revelada pelos olhos. O amor alimenta de desejo a espera. O amor cura a alma no uso do corpo. O amor suporta dez anos de silêncio.

- O amor não existe.

4.2.18

Presente orgânico

A morte já me fez de vítima certas vezes. E, em todas elas, eu tinha vida que sobrava. Sobrava.

A morte, em qualquer tempo, ainda aparece. Mas agora me assassina e eu acho graça. Tiro a vida do bolso e gasto tudo. Nenhum troco me resta; nada me falta.